O espaço público privatizado: cidadão consumidor

A dimensão ideológica do sistema a que somos submetidos é individualista. Além de privatizar o espaço público e utilizar de uma linguagem que vende o político como um produto, com ênfase aos seus hábitos particulares, reduz o cidadão à figura também privatista do consumidor do produto exposto [político], tudo para que esqueçamos o poder político como o direito do participável.

Antes de nos transformar em “consumidores do produto exposto”, submetem-nos a uma ideologia hoje prevalente, com uma linguagem eficiente, sugestiva de que para sermos felizes precisamos comprar cada vez mais mercadorias [políticos], cada vez mais caras (KONDER, 2002), com um aumento indescritível na intensidade de frustração e do número de frustrados.

Essa exploração dos ‘falsos prazeres’, como analisa Konder (2002, p. 91), com citação de Marcuse, sugere ser a felicidade uma necessidade de comprar cada vez mais ‘mercadorias caras’ [entenda-se políticos] e “tornam os homens menos livres, mais cegos e mesquinhos do que precisam ser”, essa esperta maneira do capital se impor é levada à política de modo eficiente, transformando o político em uma mercadoria e o cidadão na figura privada do consumidor.

Toda onda de marginalização, de excluídos, de pobreza e de produção de estudantes sem esperança e vazios anima-se para uma reação brutal. Essa força estranha e contrária ao legítimo faz gerar o medo, o medo é encerrado no desespero, forcejando para a recusa à submissão a essas leis injustas que tentam aprovar, desfigurando os valores compartilhados pela sociedade para solução de seus problemas. Os políticos [produtos expostos na vitrine] hostilizam o bem comum e, mesmo assim, passam a ser objeto de desejo ou de desprezo do consumidor [cidadão], diante de falsificações cada vez mais sofisticadas.

Depois de uma mensagem poderosa para transformar o político em um produto exposto na vitrine e da privatização do espaço público, busca-se a redução do cidadão à figura do mero consumidor dos “produtos”, com suas características particulares e privadas à venda, não raro falsificados, com o esvaziamento dos partidos políticos, e faz o poder ter a fisionomia do dirigente que o exerce, trazendo suas características próprias e privadas, vendidas aos cidadãos (MENDONÇA, 2002)

A face do governante oculta a face do Poder do Estado. Adotando esse recurso domina e permite que desfilem os interesses dos apadrinhados e pessoais, diante do olhar de uma massa desesperada, perplexa e aturdida das quais se busca e espera apenas o voto (MENDONÇA, 2002).

Diante desse quadro personalista e privatista do espaço público, com a venda do político como um “produto exposto” ao “consumidor” (cidadão), promoveram a precariedade dos partidos políticos, e os políticos se transformaram, na grande maioria, em ‘raposas vestidas de messias’, transformados em líderes partidários sem partidos, que do cidadão querem apenas o voto sem representação, a política sem participação, sem nenhuma referência às correntes de ideias, a conteúdo ou programas partidários.

Sem oportunidade de informação e sem acesso a uma educação eficiente e libertadora do homem, o cidadão busca a salvação em homens que se apresentam como profetas, salvadores, pais ou aventureiros para, mais adiante colher o personalismo e o clientelismo, divorciados do bem público, para atender interesses pessoais de aliados políticos, promovendo um distanciamento do povo e um vazio em toda a sociedade.

Na entrada do terceiro milênio, é preciso elevar a política ao seu patamar instrumental, para reverter o homem da condição de um mero instrumento do poder, para ser o poder o instrumento em seu favor, a fim de finalizar com a perversão política e assegurar o cumprimento da promessa de construção de uma sociedade mais justa, livre e solidária.

Diante de um espaço público privatizado, todos são empurrados à ilusão de que a felicidade e a liberdade estão reduzidas à figura privatista do consumidor. E os políticos seguem produzindo leis que, na realidade, buscam atender interesses menores do que o do todo, com brutal influência no âmbito do Estado, com ofensa ao Povo, ao ‘multitudo’.

Na privatização do espaço público, as teias do poder estatal, destinadas à promoção do bem público, vão sendo substituídas pelas personalidades e atraindo o homem a aliar a pessoas e não a ideias.

A ocultação da face do Estado pelo personalismo da autoridade que se instalou no Poder é, na maioria das vezes, a causa de conceitos distorcidos sobre os políticos. Aquela ideia de voto por ter conseguido um medicamento, uma cirurgia, uma cesta básica, é o sintoma de que o personalismo se instalou e que enxergamos a saúde e outros direitos sociais fundamentais, em vez de deveres do Estado, um favor do personagem que se instalou no Poder e, sob essa dispersão do entendimento, a respeito da finalidade do Poder estatal, os cidadãos (consumidores) são levados a recorrer à sobra poder, mantendo-os distante da verdadeira consciência livre e democrática.

Referências

MENDONÇA, Kátia. A Salvação Pelo Espetáculo. Mito do Herói e Política no Brasil. Topbooks Editora e Distribuidora de Livros Ltda., 2002.

KONDER, Leandro. A Questão da Ideologia. São Paulo: Companhia da Letras, 2002.

CARVALHO, Gilson. O Direito de violar a lei e o ato administrativo. Editora Machadense, 2015.

Por Gilson Carvalho

Advogado e Mestre em Políticas Públicas

09/12/2016